quarta-feira, 9 de maio de 2012

Humanidade e Generosidade































Abel Ferrara - A Religião da Intensidade (2)

 http://3.bp.blogspot.com/-Ct5FPTsAp38/T15_mmVnZvI/AAAAAAAAC00/Dlgk8WzVEtU/s1600/The+Blackout+(1997)+de+Abel+Ferrara..jpg


Continuando e finalizando os comentários sobre os filmes da mostra Ferrara

7) Sedução e Vingança (Mrs. 45, 1981)

Repulsion -> Taxi Driver -> Carrie. Mas com algumas mudanças fundamentais. É Repulsion, mas com causas externas, como uma reação a traumas causados por uma cidade podre. É Taxi Driver, mas com um foco mais específico e não simplesmente querendo limpar a cidade da 'scum of the earth' - e por conta dissso até mais surtada. É Carrie, sem o dom operístico do De Palma, mas ainda assim bastante catártico: a personagem, vestida de freira, balbucia sua última (e única palavra), "sister", após ser apunhalada pelas costas por uma mulher que segura uma faca de uma forma significativa (como bem observou meu amigo Daniell). No mais é delicioso acompanhar a forma como Ferrara conduz a transformação da personagem e sua relação com os homens e os assassinatos que comete: é de um metodismo quase Hitchcockiano. 


8) Go Go Tales (Idem, 2007)

Pode ter sido a influência do debate realizado imediatamente antes da sessão, com o Ferrara, mas achei esse filme delicioso. Considerando o universo padrão dos filmes do Ferrara, dá pra dizer que é o "It's a Wonderful Life" do cara. Ray Ruby é o máximo que um personagem do Ferrara chegaria do George Bailey. Ele só tenta fazer, daquele jeito dele, meio surtado, meio viciado, etc o bem pros outros. O ritmo é meio de screwball, mesmo, mas não dá pra rir tanto... dá pra curtir MUITO. É bem Hawksiano nesse sentido de apresentar os personagens, a dinâmica entre eles, um lugar (o clube de strip) e se fixar nisso, sem focar especificamente numa história, num enredo (apesar dele existir). A dança/corpo das personagens, a forma como a câmera se movimenta brincando de focar o que bem quiser é tão ou mais relevante do que as traminhas que surgem. E se o Ferrara já tinha se mostrado capaz de misturar o água e óleo (shakespeare e 80's NYC, baseball e religião, vampirismo e filosofia, drogas e natal, etc) aqui ele se esbalda:  o filme inteiro é um manifesto pró-autorismo, pró-liberdade e a cena dos personagens realizando suas apresentações no meio da noite é a maior declaração de amor à sua própria arte.


9) Os Chefões (The Funeral, 1996)

O começo é de arrepiar. Gloomy Sunday dita o clima para o que, de fato, se desenha como uma tragédia anunciada. Mas nada realmente prepara a gente para o final do filme. Nem a narrativa anti-linear, nem os traumas de infância, nem as elipses violentas, nem os diálogos pesados, nem a fotografia sombria e escura. É um Ferrara mais contido, mas que encontra na força dos atores (Walken, Chris Penn, Vincent Gallo, Isabella Rossellini, Benicio Del Toro) a intensidade necessária para compor seu filme de máfia.


10) Olhos de Serpente (Dangerous Games, 1993)

Cassavetes, mais uma vez. Agora é "Uma Mulher Sob Influência", "Noite de Estréia", etc.  Primeiro filme em que a personalidade do Ferrara se assume quase que integralmente na tela, compondo um estudo sobre os limites entre a arte e a vida do artista. A intensidade (que flutua dubamente entre a artificialidade da ficção e a crueldade do real) dos sets constrasta com a morosidade da vida familiar de Eddie, gerando uma tensão que naturalmente leva à destruição de tudo: do real, da ficção, da família e do set.


11) Invasores de Corpos (Body Snatchers, 1993)

A justificativa está no post abaixo. Se a importância do expressionismo alemão (principalmente Murnau) já poderia ser percebida em outros filmes, é sensacional senti-la nessa filme de estúdio. A história dialoga com muitos temas recorrentes da obra do Ferrara, mas não li o conto original nem vi nenhuma outra versão para traçar algum paralelo mais detalhado. Garanto somente que o meu desejo de assistir o filme novamente está essencialmente ligado à câmera, às luzes, aos ângulos, aos movimentos... Ferrara mais artesão do que artista.


12) Blackout (Idem, 1997)

Primeiro filme de Ferrara sobre a memória e a imagem. Dobradinha mortal com New Rose, em que os dois filmes se ajudam mutualmente. Se no filme de 98, o curto-circuito cerebral é causado pela paixão, por um amor cego à personagem da Asia Argento, aqui, por mais que ainda haja uma poderosa  obsessão do Matty pela Annie, a questão do vício, da bebida e, naturalmente, do blackout que ela causa é mais evidente. A jornada do protagonista me envolveu durante o filme inteiro e o final é...


13) Os Viciosos (Addiction, 1995)

Filme-testamento. Se os grandes trabalhos do Ferrara parecem vir em dobro - Rei de Nova York / Vício Frenético, Blackout / New Rose -, esse aqui  é tudo que 'Body Snatchers' poderia ser e não foi. Por isso parece um filme tão "complexo", "cabeça": um filme sobre vampiros (em que o termo não é mencionado nenhuma vez), que serve de metáfora sobre o vício (mas não só o vício em drogas, mas principalmente o vício no mal), que cita (tudo em contexto) Nietchsze, Bukowski, Proust, Sartre... em que (como colocou um amigo meu no Facebook) "o homem é o essencial alimento de vida, e fonte da sua reflexiva fraqueza"... que possui uma das mais sinceras rupturas narrativas que já vi (a participação do Chris Walken)... que apesar de um pessimismo niilista sufocante ("We are not sinners because we sin. We sin because we're sinners") consegue terminar com um suspiro de humanidade e esperança - "To face what we are in the end, we stand before the light and our true nature is revealed. Self-revelation is annihilation of self." Obra-prima.

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TOP FERRARA (i.e. 13 filmes e nenhum erro):

Addiction - 9,5

King of New York - 9,0
Blackout - 9,0
Bad Liutenant - 9,0
New Rose Hotel - 9,0

Go Go Tales - 8,5
China Girl - 8,5
The Funeral - 8,5

Dangerous Games - 8,0
Mrs 45 - 8,0
Maria - 8,0
'R Xmas - 8,0
Body Snatchers - 8,0

domingo, 29 de abril de 2012

Se é pra entubar um projeto de estúdio...


















... que pelo menos filme assim, porra!

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Abel Ferrara - A Religião da Intensidade (1)

http://cinecafe.files.wordpress.com/2010/12/bscap0624.jpg?w=1200&h=


 
Depois de algumas sessões de pré-temporada nas mostras no IMS - que, cá entre nós, é a Granja Comary dos centros culturais do Rio -, o ano de 2012 começou dia 10 de abril com a mostra do Abel Ferrara.

Não digo isso por algum fascínio pela obra do diretor. Não conhecia nada dele até a mostra começar. Digo mais pelo meu nível de dedicação e entrega (como foi com Ford, Hitch, Minnelli, Ray, etc) nestas duas semanas que compreendem a realização da mostra.

Portanto, estendo essa dedicação ao meu blog, postando aqui um acompanhamento semanal da mostra. Será curto, 2, 3 posts no máximo. Mas dá uma sacudida na poeira aqui e me ajuda a aquecer para as outras mostras previstas para o ano.

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Pra mim, falar sobre Ferrara é meio complicado. Primeiramente porque  estou tendo meu primeiro contato com a obra do cara agora, nessas duas semanas, então é tudo meio superficial... cheio de 'dedos'... como num 'first date'. Segundo porque talvez seja, dos cineastas recentes (com auge de 90 pra cá) e malditos (sem muito valor reconhecido pela maior parte da 'academia' e pelo público em geral) aquele que recebe maior atenção por uma certa parcela da crítica. Principalmente aqui no Brasil, onde é mole encontrar textos sobre seus filmes e sua obra nas principais revistas eletrônicas (Contracampo e Cinética) ou não (extinta Paisà).

Então, meus textos serão curtos buscando um tom bem pessoal, tentando fugir daquilo que parece óbvio (basta ver dois filmes ou ler dois textos desses que mencionei acima que já dá pra sacar um pouco da cara do cinema dele) e que já foi desenvolvido bem melhor em outros lugares. 

Na ordem em que foram vistos:



1) Vício Frenético (Bad Liutenant, 1992) 

O filme tem aquela cara de bomba-relógio. A primeira cena, no carro, é simbólica. E a construção desse mundo prestes a explodir é absurda. Mas o que mais pegou pra mim é que no fim das contas, não há explosão (se rola algo, é uma implosão). Após a catártica cena na igreja e o contato com o divino ,que por milagre/coincidência o mostra um caminho para a fuga de seus problemas, o que o personagem de Harvey Keitel faz é justamente o contrário. Ele engole tudo a seco, grita e enxerga no amor ao próximo e no perdão do imperdoável o único caminho possível para sua própria redenção. Redenção interna, porque pra fora, para a cidade, isso pouco importa. Me lembrou a escolha/destino de Tom Doniphon, outro trágico anti-herói do cinema.


2) Inimigos pelo Destino (China Girl, 1987)

Saí da sessão com a sensação de que toda a grande história já criada pelo homem (Hamlet, Crime e Castigo, Odisséia, etc) deveria ter uma versão ambientada na NYC dos anos 80. Dos que vi, talvez seja o mais clássico dos filmes do Ferrara. Está tudo na mise-en-scene, nas cores e seus símbolos, na geometria, nos ângulos e no movimento da câmera. O que achei interessante, foi a inclusão de (além da questão racial, como uma extensão da noção de família) mais um nível, uma camada acima da rixa entre os chineses e italianos. Não sei se isso existia no original, do Shakespeare, mas nas duas adaptações que vi (West Side Story e aquela coisa horrorosa do Luhrmann) não. E essa camada enriquece muito o universo político da coisa. É como se além do preconceito externalizado, agressivo dos jovens, existisse uma vontade, proposta pelos tios, mais velhos e experientes, de empurrá-lo para debaixo do tapete, manter as aparências em prol de uma paz/coexistência de fachada. Ferrara cria não só uma rixa entre raças, mas um racha dentro de cada parte, criando uma rede complexa de interesses e preconceitos em que o casal é a única coisa pura e decente - e que, naturalmente, tem o único destino possível.


3) Enigma do Poder (New Rose Hotel, 1998)

"Um Dom Casmurro futurista underground softporn". A definição do meu amigo Xandeco, foi dita em um contexto negativo, mas é precisa independente do juízo que se faz do filme. Primeiramente deixo claro que 90% do meu fascínio pelo filme se deu pela tela grande, do cinema. Sinceramente acharia impossível me envolver da mesma maneira se estivesse assistido pela primeira vez numa tela pequena (como a maioria dos fãs e não-fãs). Há um interesse pela história e pela engenhosa trama que se apresenta a nós de forma ainda mais engenhosa e disforme, mas posso garantir que se saí satisfeito da sessão foi por uma superficial relação estabelecida entre eu e as imagens projetadas a minha frente. Agora, tentando destrinchar um pouco mais as coisas, a minha tendência é enxergá-lo como uma primo distante, meio noir meio cyber-punk, da linhagem de filmes sobre a 'verdade da imagem' como Blow Up, Blow Out, Vertigo e o prório Road to Nowhere do Hellman. Posso estar forçando, mas a ideia do Ferrara de nos 20 minutos finais praticamente rever o filme pelo subjetivo olhar de um Willem Dafoe perdido tem muito a ver com a discussão levantadas por esses filmes. New Rose Hotel ainda prevê uma tendência (modinha no meio da década passada) que seriam filmes sobre as imagens geradas pela tecnologia. De Palma fez Redacted (2006), Romero em Diário dos Mortos (2007). Os blockbusters também tiveram seu interesse nesse filão - Cloverfield (2008), Ponto de Vista (2008). Nesse sentido é simbólico que este seja o último filme do Ferrara no século passado.  É evidente a necessidade de uma revisão para melhor apreciação do filme, mas fica claro que é uma experiência única, de vanguarda e que merece grande parte do reconhecimento que possui.


4) Maria (Mary, 2005)

Saí da sessão com a impressão de que este era o filme mais fraco que já tinha visto do Ferrara.  Já em casa, li os vários textos sobre ele publicados na Cinética, Contracampo e Paisà. Mudei de idéia. Não radicalmente, porque já tinha achado o filme instigante e com ótimos momentos (principalmente as rupturas agressivas dos momentos de calmaria), mas não tinha fechado uma visão coesa daquilo tudo. Ainda não fechei, mas agora me parece um filme muito mais centrado e que, por mais solto que pareça (vários protagonistas, histórias que se cruzam, montagem toda torta, filme-dentro-de-filme, fusões, etc), o filme possui um tema bem claro (a fé) e é tão conciso e decidido quanto, sei lá, Vício Frenético, por exemplo. Lembra um pouco o "Além da Vida" do Clint, na forma em que desenvolve três protagonistas, que estabelecem relações distintas com o tema principal do filme (no caso do Clint, a morte) e como essas relações e visões vão mudando/se revelando conforme eles se cruzam. O Clint só é mais 'certinho', enquanto o Ferrara, conscientente, constrói algo mais torto. É curioso, também, como o filme é ao mesmo tempo eficiente (só temos uma cena sobre a traição do personagem de Whitaker) e sobrecarregado (essa mesma cena dura uns 10 minutos com somente um plano - as I remember).


5) O Rei de Nova York (The King of New York, 1990)

O fantasma de Nova York. O vampiro de Nova York. Forma uma dupla poderosa com "Vício Frenético". Como se Ferrara pegasse a famosa analogia de 'duas faces de uma mesma moeda', derretesse a moeda e transformasse numa bola. Ou numa bala. Sei lá... Filme com um senso rítmico preciso (bem distinto do cadenciado e "pesado" filme de 1992), um Walken que é, fácil, fácil, uma das maiores atuações da década (considero maior do que a do Keitel). Se antes era uma suspeita, nesse aqui fica claro a influência do Cassavetes no cinema do cara. Isso aqui é Bookmaker Chinês puro - o final então. Por falar no final, achei muito simbólico o Frank White morrer num táxi por causa de um ENGARRAFAMENTO. A pergunta que fica é: qual o melhor filme de ação da década de 90 - esse, Pagamento Final ou Heat?


6) Gangues do Gueto (R' Xmas, 2001)

Penso que depois da dobradinha Rei de Nova York/Vício Frenético o Ferrara tinha pouco a acrescentar a este submundo violento/humanizado das drogas, crime, etc. E de fato a sua filmografia dá uma mudada de foco. Mas nada que o impedisse a retornar a esta praia quando achasse interessante. E nesse Gangues do Gueto, Ferrara monta seu "Christmas Tale". Só aquela cena em que metodicamente filma o trabalho dos traficantes empacotando a droga, contando dinheiro, etc enquanto discutem os presentes de natal para a família já vale por muito filme inteiro. Ferrara inclusive dedica mais tempo filmando a intimidade do casal do que tiroteios, brigas e confusões - mas o filme não é 'fracote'... a gente sabe que a coisa não é mole, há uma tensão constante que Ferrara constrói (mais por meios estéticos, filmar à noite, luzes, etc) sem perder a mão na sensibilidade e humanidade da coisa. A opção pelos letreiros no começo e no final são principalmente políticas... mas ajudam bastante na identificação e empatia com aqueles personagens, aquele mundo que, em muitos aspectos, não é tão diferente (e muito menos tão mais 'errado', 'feio', etc) que o nosso. E aquele final é o Ferrara dizendo "todo o natal tem seu fim".

quarta-feira, 28 de março de 2012